
A vasta planície do Alentejo acolheu durante cinco dias uma competição com fortes tradições na modalidade, não só entre os portugueses, mas também entre algumas equipas estrangeiras que ano após ano por esta altura vêm a Portugal. Para a história fica o triunfo do jovem inglês Noah Hobbs, vencedor de duas das cinco etapas da “Alentejana”. Já na classificação geral por equipas o domínio acabou por pertencer à formação portuguesa Rádio Popular-Paredes-Boavista, orientada por José Santos, uma das figuras mais carismáticas do pelotão nacional. A competição acabou por ser mesmo um presente vindo dos céus, tal a súbita mudança do clima, acolhida como uma verdadeira bênção.
Depois de um prolongado período em que o mau tempo assolou o território português, fruto de uma longa série de depressões com chuva abundante e um frio de cortar à faca, a Volta ao Alentejo parece ter sido abençoada. Com efeito, durante todo o tempo em que decorreu a competição, o São Pedro entendeu por bem fechar as torneiras do céu e o sol brilhou para todos. Finalmente lá apareceu a Primavera com cheiro de Verão. As temperaturas chegaram mesmo a atingir valores algo elevados para esta altura da época, proporcionando momentos bem agradáveis entre a família do ciclismo. E foram muitas as pessoas ao longo das estradas para ver a passagem dos corredores, mais concentradas, como normalmente acontece, nas partidas e nas chegadas.
As cinco etapas fizeram-se quase sempre a rolar, pois a zona alentejana é maioritariamente plana, com muito pouca montanha, para não dizer praticamente inexistente. Por isso mesmo, nas contas finais, a diferença de tempos entre o primeiro classificado e o 30º cifrou-se em apenas um minuto. O vencedor Noah Hobbs, cada vez mais um ciclista de eleição, contou com a preciosa ajuda dos seus companheiros e não encontrou grandes dificuldades para seguir vestido com a camisola de líder até ao final na linda cidade de Évora. Como sempre acontece, houve algumas tentativas de fuga ao longo dos quase 820 quilómetros de prova, mas todas as etapas foram discutidas ao sprint, pelo que os mais “aventureiros” não levaram por diante a sua ousadia.
Cidade de Paredes bem representada num pelotão de luxo
A SOMA GROUP foi uma das três formações do escalão Sub-23 presentes na 42ª Volta ao Alentejo. Sediada em Lordelo, Paredes, a equipa orientada pelo antigo ciclista profissional José Barros, mereceu a chamada à enormíssima competição depois de ter conseguido, por via do respetivo ranking, um dos lugares de acesso às provas de maior prestígio do ciclismo português. Os corredores do conjunto lordelense tiveram uma prestação de relevo, garantindo para o concelho de Paredes uma imagem bem positiva, ainda que longe dos lugares de acesso ao pódio. Mas esse também nem era, à partida, um objetivo que entrasse na melhor das previsões, pois o pelotão integrava algumas equipas profissionais nacionais e estrangeiras de elevada craveira.

Contudo, exceção feita à última etapa, a “armada” colombiana da SOMA GROUP rolou sempre nos lugares da frente, pelo que as diferenças para os mais bem classificados e candidatos ao triunfo andou sempre na ordem de alguns escassos segundos. Numa prova desta envergadura, sabendo-se que a modalidade é sustentada por dedicados patrocinadores, é de realçar o mérito do trabalho efetuado por todos os corredores em prol da divulgação das marcas que patrocinam a equipa. E, muito justamente, a cidade de Paredes, que tem no seu presidente Alexandre Almeida um apaixonado pelo ciclismo, para lá do contributo financeiro que anualmente a edilidade paredense disponibiliza para apoio da equipa com sede na freguesia de Lordelo, em Paredes, município pertencente à Área Metropolitana do Porto.
A outra volta… à volta da mesa
Ninguém fica indiferente aos sabores do Alentejo. A variedade é muita, se bem que a carne, muito tenra, seja uma iguaria divinal. O borrego – ou o cordeiro, tão apetecido agora que estamos quase a chegar à Páscoa – é um dos pratos com mais saída. Cozinhado de diversas formas, por norma a escolha recai num bom assado em forno a lenha. Experimentamos e o que se pode dizer é que estava uma delícia, obviamente acompanhado por um bom vinho tinto da região. Refira-se a propósito que os néctares alentejanos granjearam fama a nível mundial, alguns premiados com medalhas de ouro, prata e bronze, para lá das várias menções honrosas atribuídas. Não é fácil falar de uma casta específica – é melhor deixar essa matéria para a Confraria dos Enófilos do Alentejo -, mas há muitas e boas, brancas, tintas e rosadas. Claro que as marcas fazem a diferença e podem ir de apenas três euros por garrafa aos… mil euros. Nada que um bom prato de carne não mereça, só que tal como os vinhos, há bolsas e bolsas. Cá por mim fui num tinto da região de Estremoz e fiquei satisfeito.
Num outro local, concretamente na vila de Ourique, comemos um arroz de frango de cabidela, uma especialidade mais do Norte de Portugal, o chamado “pica no chão”. A ave é cozinhada lentamente, aromatizada com sal e especiarias, para depois se acrescentar o arroz e, por fim, o sangue. Este prato identifica-se ainda pelo paladar forte com aroma avinagrado. As raízes minhotas desta iguaria foram-se espalhando por todo o país e nos dias de hoje a cabidela é servida em muitos restaurantes. Para lá da confeção do alimento, recomenda-se que o frango caseiro ou do campo seja alimentado a milho e verduras em espaço livre para que possa “picar” no “chão”.
A gastronomia alentejana é, portanto, rica em pratos de carne a que se acrescenta as famosas migas, feitas à base de pão tradicional de trigo seco e umedecido e frito até criar uma massa cremosa. Normalmente, este prato é acompanhado com carnes fritas como o lombo, o entrecosto ou costelas de porco. Mas há muito mais por onde escolher, sendo que as entradas são mesmo imperdíveis. As azeitonas e os queijos comem-se com os olhos, ou seja, não convém abusar muito, pois a seguir vem um bom prato de carne, seja cordeiro, borrego, ou um bom porco preto alentejano. Tudo excelente, por estas bandas não falta mesmo nada, haja apetite e barriga para tanta variedade. Quanto aos preços, nada que fuja muito do habitual – em média, por pessoa, 20 e poucos euros são suficientes para se ficar satisfeito -, mas obviamente que a conta pode pesar mais, tudo dependendo do requinte do espaço. Cá por mim ainda prefiro alinhar nas tasquinhas, ainda muito populares por esta zona do país.
Pois é, isto de se andar a “pedalar” na Volta ao Alentejo abre o apetite. Para o ano há mais!
Alentejo, Alentejo
Vastidão de Portugal
Futuro, continental!
Terra lavrada, que vejo
A ser mar, mas sem ter sal.
(…)
Miguel Torga (poeta e escritor português)
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